Janelas.
- 2 de fev. de 2020
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Atualizado: 3 de fev. de 2020

Janelas.
Acho que nunca lhes dei a devida importância. Até agora. Estou a estagiar 7 horas por
dia num sítio sem janelas. Com luz artificial, que nem sequer se pode dizer que
ilumine. São 7 horas num ambiente sombrio. Não há cor. É cinzento, preto e branco.
Quase poderia dizer que é um filme daqueles mais antigos a duas cores, mas, até isso
seria demasiado elogio para este sítio.
Há muito tempo, ouvia repetidamente uma senhora muito querida dizer que não
gostava da casa dela. Porque a cozinha não tinha janelas. E ela passava maior parte
do tempo na cozinha. Ouvi-a mesmo muitas vezes dizer isso. Mas nunca percebi.
Anos passaram e ela foi morar para outro sítio. Quando nos reencontramos ela disse-
me "Finalmente Rita, uma cozinha com janelas, uma casa cheia de janelas,
finalmente luz a entrar!". Agora percebo. A falta de luz é incomodativa. Esteja sol ou
chuva do outro lado do vidro. Não haver luz natural, não ver o outro lado é
incomodativo. É isolamento, é sombrio. E entristece. Tudo causado pela simples falta
de uma simples janela. Bem dizem que só damos valor às coisas quando as
perdemos. E que as coisas não acontecem por acaso. Foram precisos passar anos e
eu ir estagiar para este sítio para perceber o que ela me dizia. Só nos apercebemos
das coisas quando acontecem connosco. E se calhar só "ouvimos" da forma certa
aquilo que o outro nos diz quando vivemos o mesmo. Porque se não passarmos por
alguma coisa parecida nunca vamos entender. Neste caso, entendi a falta que as
janelas lhe faziam. E entendi o sorriso e o fascínio que tinha estampado na cara ao
dizer que agora vivia numa casa cheia de janelas. É algo vulgar e simples. Mas
especial. Essa senhora também é especial. Desejo muito que a vida dela seja cheia de
luz.
São só janelas. Mas já notei a falta imensa que me fazem.


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